Seis pontos para pensarmos as candidaturas femininas em tempos de COVID-19
- Clara Araújo
- 9 de mai. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 8 de set. de 2021

Como já falamos aqui no blog, a pandemia tem mostrado como o coronavírus e suas consequências vem atingindo, principalmente, a população mais vulnerável, realçando as estruturas desiguais da sociedade. Dentre os grupos que sentiram suas dificuldades aumentarem durante esse período, está o das mulheres.
Com o calendário eleitoral mantido, é necessário repensar em que medida as candidatas sentirão essas desigualdades durante o período de eleições. Na última quinta-feira (7), a Escola Judiciária Eleitoral do TRE-MG realizou o debate “Impactos da Covid-19 nas candidaturas femininas”, no qual as debatedoras Polliana Pereira Santos e Paula Bernadelli, mediadas por Diogo Cruvinel, discutiram o tema, trazendo reflexões essenciais para a questão. O vídeo completo está disponível neste link.
Destacamos aqui algumas das considerações levantadas durante o debate que nos ajudam a pensar na situação das candidatas nas eleições municipais de 2020:
1. Desigualdades entre homens e mulheres acentuadas
As mulheres são a maioria das realizadoras dos trabalhos de cuidados não remunerados e mal pagos, segundo relatório da Oxfam. Elas estão na linha de frente no combate ao vírus e, como mostrado em um estudo de Denise Pimenta, sobre a epidemia de ebola em Serra Leoa, podem ser as principais vítimas.
Com o aumento de serviço doméstico e cuidados de pessoas, as mulheres passam a ter ainda menos tempo para a vida política, que, naturalmente, exige grande demanda, como no relacionamento com eleitores e na arrecadação de verbas.
Além disso, considerando um cenário de abertura gradual dos serviços, poderemos ter mulheres responsáveis por crianças tendo que voltar a trabalhar enquanto as escolas e creches continuarão fechadas, trazendo mais dificuldades a elas. Entretanto, isso já é a realidade de muitas mulheres no mercado de trabalho informal, como discutiremos no próximo ponto.
2. Desigualdades entre mulheres brancas e negras acentuadas
As mulheres negras são maioria na força de trabalho informal e, ainda, a maioria das mães solo no país. Por isso, continuam trabalhando e enfrentando dificuldades para cuidar de suas famílias. Muitas vezes, continuam prestando serviços às mulheres de classes mais altas, permitindo que tenham tempo livre para se dedicarem aos seus trabalhos.
Esse cenário, aumentado durante a pandemia, mostra o porquê das mulheres negras serem minorias nos espaços de poder e as dificuldades que precisam enfrentar para reverter esse cenário.
É essencial ter uma visão interseccional ao abordar a questão das mulheres na política. Se as mulheres ocupam apenas 13% dos cargos de vereadoras no Brasil, por exemplo, as mulheres negras estão presentes em número ainda menor nas câmaras municipais – apenas 5%.
3. Mudança de formato das campanhas
Considerando o período de isolamento social que estamos vivendo, a dinâmica das campanhas terá que ser modificada, havendo aumento do uso do meio virtual. No entanto, além da desigualdade de acesso à internet – 46 milhões de brasileiro não possuem acesso, sabe-se que os algoritmos possuem um papel importante ao fazer chegar conteúdos aos usuários, porém agem de maneira a reforçar preconceitos.
Dessa forma, se prevê que as campanhas de mulheres podem ser prejudicadas em benefício das campanhas de homens dado o modo de funcionamento dos algoritmos.
4. Limitação na arrecadação de recursos para campanhas
O financiamento de campanhas, seja vindo do fundo partidário, seja por meio de arrecadação, é normalmente de mais difícil acesso por candidaturas menores, que são, em grande parte, de mulheres. No atual contexto existem dois agravantes para conseguir arrecadação: primeiro, muitos investimentos feitos à campanhas de arrecadação estão sendo destinados à contenção da pandemia e, segundo, torna-se um tabu falar de financiamento de campanha eleitoral no atual cenário. Muitos, inclusive, defendem a transferência do fundo partidário para medidas de amenização dos efeitos da pandemia.
No entanto, medidas de restrição de financiamento como essa atingem diretamente as campanhas femininas, que normalmente já contam com pouco financiamento e, diante desse cenário, passarão a contar com quase nada. Os partidos, dessa forma, escolherão lançar candidatos mais viáveis, isto é, aqueles mais propensos a fazerem investimentos próprios e que já contam com maior visibilidade, entre os quais, normalmente, não estão incluídas mulheres responsáveis por famílias, que dificilmente farão investimentos de riscos para suas campanhas.
5. Política como tabu
Nos encaminhando para soluções das dificuldades enfrentadas pelas candidaturas femininas, vemos como necessário retirar a carga negativa da política que temos culturalmente no Brasil, especialmente nos últimos anos. Isso porque as mulheres tendem a ver a si mesmas na lógica patriarcal, evitando participar da vida pública, seja para evitar se expor à violência política, seja para evitar pressão familiar a respeito da demanda exigida. Ver a política com uma visão mais positiva – mais como um lugar de operar mudanças e menos como um lugar “sujo” – pode trazer mais boas candidatas, que se sentirão mais confortáveis em participar e menos desincentivadas.
Nesse momento de crise, é um exercício importante enxergar as campanhas não como oportunistas, mas como parte essencial da democracia. É fato que teremos eleições atípicas, possivelmente com mais abstenções, não havendo previsões de volta à normalidade, por enquanto. Portanto, precisamos nos adaptar às circunstâncias de forma a garantir que os processos democráticos continuem funcionando. Vale destacar que aqueles países liderados por mulheres que estão obtendo sucesso no combate à pandemia são países com forte investimento no funcionamento de suas democracias.
Portanto, esse também é o momento de estarmos atentas às candidaturas laranja, acompanhando, de acordo com as mudanças nos formatos das campanhas que ocorrerão nessas eleições, as possíveis fraudes.
6. É preciso conhecer as campanhas de mulheres
Considerando todas os obstáculos que as mulheres enfrentam, o que torna difícil sua ascensão como candidatas competitivas em relação aos homens, convidamos você a buscar conhecer ativamente as candidatas na sua cidade, que estarão disponíveis para consulta no site do Tribunal Superior Eleitoral. É essencial conhecê-las e as suas propostas como forma de burlar as dificuldades a que estão sujeitas e que nos impediriam de conhecê-las melhor, além de ser uma forma de incentivá-las a perseguir a carreira política.
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