Por que o ABC Paulista não confia em mulheres?
- Clara Araújo
- 16 de nov. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 8 de set. de 2021
Desigualdade de gênero no legislativo continua na região: Apesar do avanço, as mulheres ocupam 9 das 142 cadeiras de vereadores. Rio Grande da Serra e Mauá continuam sem eleger nenhuma mulher para vereança.

A Região do Grande ABC, composta por sete municípios, elegeu nove mulheres para o legislativo municipal nas eleições ocorridas domingo (15). Houve um aumento de cinco mulheres em comparação às eleições passadas, de 2016, em que foram eleitas apenas quatro vereadoras.
O número de municípios com mulheres eleitas passou de três para cinco cidades. Apenas Rio Grande da Serra e Mauá são compostas por Câmaras Municipais inteiramente masculinas, assim, consolidando um segundo mandato seguido sem mulheres na vereança nas duas cidades.
Ainda que tenha aumentado a representatividade feminina na região, o número de mulheres eleitas é baixo e não corresponde a composição de 53% de mulheres no eleitorado do ABCDRRM. Entre os sete municípios, segundo dados do TSE, com exceção de Ribeirão Pires, todas as candidaturas com o pior desempenho eram de mulheres.
Nas capitais do país, o número de mulheres eleitas nas câmaras cresceu 36%, passando a ser 18% dos vereadores eleitos. A região do ABC não acompanhou o progresso das capitais, mantendo em apenas 6,3% a proporção de mulheres eleitas.
As eleitas
São Caetano do Sul foi a cidade que mais elegeu mulheres, com três candidatas eleitas. As escolhidas foram Bruna das Mulheres por Mais Direitos (PSOL), Suely Nogueira (PODE) e Thai Spinnello (NOVO).
Apesar de posicionadas em lados opostos no espectro ideológico, Thai Spinello e Bruna Biondi apresentam algumas características em comum: são mulheres jovens, estão em situação de primeiro mandato e fogem do costume do eleitorado em eleger mulheres casadas.
Bruna Chamas Biondi faz parte do Mandato Coletivo Mulheres por Mais Direitos e é co-candidata na companhia das ativistas Fernanda Gomes e Paula Arraya Avilés, a candidatura conseguiu reunir 2101 votos e alcançou o terceiro lugar entre os mais votados. Sabe-se que as mulheres pretas e mulheres que são mães costumam a enfrentar maiores dificuldades em fazer campanha, diante disso, Thais Spinello se torna a única mãe solo eleita no mandato atual e Suely Nogueira, em sua reeleição, continua sendo a única mulher preta eleita na cidade.

Assim como São Caetano do Sul, Ribeirão Pires elegeu um mandato coletivo, sendo este, por sua vez, uma mandata composta por 18 mulheres. Além de Marcia Coletiva de Mulheres (PT), a cidade também elegeu Amanda Nabeshima (PTB) que alcançou o quinto lugar entre os mais votados. Em São Bernardo do Campo, duas mulheres foram eleitas, sendo ambas pertencentes ao Partido dos Trabalhadores, são elas Ana Nice e Ana do Carmo. Em Diadema, também uma candidata do Partido dos Trabalhadores conquistou a vaga, Lilian Cabrera retorna ao cargo de vereadora como a única mulher eleita na cidade.

A cidade de Santo André foi a única que diminuiu o número de vereadoras em comparação a 2016. As eleições anteriores elegeram duas mulheres, enquanto no mandato atual apenas uma candidata foi eleita, Dra. Ana da Veterinária (DEM). Em comparação ao mandato anterior, apesar do número ter caído pela metade, o padrão de mulher eleita em Santo André continua muito semelhante: mulher branca, casada e com alta escolaridade.
Confiança nas mulheres
Distante de uma paridade de gênero nas câmaras legislativas municipais, o ABC Paulista persiste em apresentar como resultado um caso grave de sub-representação feminina. A confiança do voto permanece majoritariamente em candidatos homens, mesmo com o cenário atual de pandemia e divulgação internacional midiática tenha revelado que países liderados por mulheres agiram de maneira mais rápida e mais bem sucedida no combate ao COVID-19.

Além disso, estudos recentes apontam por melhor atuação por mulheres em comparação aos homens na luta contra a corrupção e a mortalidade infantil. A reportagem da BBC sobre relatório do Fórum Econômico Mundial revelou também uma dimensão econômica sobre os efeitos da participação das mulheres em instituições: “Pesquisas feitas ao longo de três décadas mostram que (…) empresas com mais mulheres líderes e nos conselhos têm maiores lucros e performance financeira. Também têm menos relatos de fraude, corrupção e erros financeiros. Na Noruega, onde é exigido que as empresas reservem ao menos 40% de seus assentos de conselho a mulheres, as pesquisas mostram que elas têm mais probabilidade de pensar em longo prazo, e incluir cidadãos, em vez de apenas acionistas, em suas deliberações. As mulheres estimulam os conselhos a focar mais na comunidade, no ambiente e nos empregados.”Portanto, para além da questão de justiça, votar em mulheres poderia se revelar uma boa aposta de enfrentamento à crise socioeconômica atual.
No entanto, mulheres têm se mostrado boa líderes não porque são naturalmente melhores que os homens. Isso pode ocorrer por algumas razões, como: mulheres eleitas tendem a ser mais qualificadas que homens por enfrentarem mais barreiras para alcançarem o cargo; mulheres se preocupam mais com questões sociais porque dizem respeito a problemas que as atingem diretamente; e, quando olhamos para países com democracias fortes, é mais provável que exista maior paridade de gênero nos cargos de poder e que boas práticas políticas sejam consolidadas e valorizadas.
Garantir que os espaços de poder sejam ambientes plurais, com diversas perspectivas, faz com que as decisões políticas contemplem interesses que não seriam considerados se houvessem apenas representantes de um único ou de poucos grupos. Uma câmara legislativa formada inteiramente por homens brancos invisibiliza debates concernentes às mulheres ou às pessoas negras, por exemplo, enviesando a criação de políticas públicas e a distribuição de recursos públicos.
A presença de representantes de mais grupos sociais nesses espaços faz com que mais interesses sejam reconhecidos e incluídos na construção de políticas. A representatividade feminina foi um marco das eleições municipais de 2020, com eleição de vereadoras em todas as capitais do país.
O aumento da representatividade feminina no ABC Paulista pode fazer parte do estímulo em eleições de mulheres visto nacionalmente, porém, com o tímido aumento, o baixo número de representatividade feminina na região revela a continuação da resistência em confiar mulheres a cargos públicos de poder nos sete municípios do ABC Paulista.
Post por Clara Vinholi Araújo e Gabriela Paula Silva Alves
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