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Marielle Franco e o porquê uma Vereadora pode incomodar tanto

Atualizado: 8 de set. de 2021


Fonte: Divulgação/PSOL

No dia 14 de março de 2018, a vereadora e socióloga Marielle Franco foi assassinada no Rio de Janeiro, e até hoje o caso investigado permanece sem todas as suas perguntas respondidas. Para além da tragédia em si, sua execução demonstrou como as novas vozes na política podem gerar tamanho incômodo, este que resultam na tentativa tão brutal de silenciamento.


Mulher negra e bissexual, Marielle Franco foi eleita como Vereadora na Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelo PSOL. Em sua página do Facebook é definida como ‘’ cria da favela da Maré’’ e em seu mestrado, na Universidade Federal Fluminense (UFF), dissertou sobre o tema: “UPP: a redução da favela a três letras”. Apesar de ainda não estarem concluídas as investigações sobre sua morte, é possível compreender Marielle como vítima do que é chamado ‘’ Violência Política de Gênero’’.


Ao ocupar espaços políticos tradicionalmente ocupados por homens, sobretudo brancos e ricos, o desconforto com a presença feminina, quase dada como penetra principalmente após a adoção das cotas, pode se transformar em violência com o objetivo principal de continuar a estabelecer um controle na atuação política das mulheres e em seus consequentes efeitos. Na pesquisa realizada pelo Instituto Alziras, por exemplo, 53% das prefeitas entrevistadas dizem já terem sofrido assédio ou violência política pelo simples fato de ser mulher.


A violência parte do senso comum de que as mulheres não pertencem ao debate público, ideia essa compartilhada pelo presidente do PSL, partido do atual presidente Bolsonaro, quando declarou à Folha de São Paulo que ‘’ [A política] não é muito da mulher. Eu não sou psicólogo, não. Mas eu sei disso’’.


A vereadora Marielle, além de romper com essa ideia, sendo a quinta mais votada, eleita com 46.502 votos, trazia com ela novas bandeiras, principalmente a feminista e a antirracista. Apresentou 16 projetos, o primeiro apresentado previa o tratamento humanizado àquelas mulheres que conquistassem o direito de abortar pela Justiça, outros projetos se davam pela instituição de dias, como o da mulher negra e da visibilidade lésbica, também defendeu a inclusão de cartazes que informem os direitos das vítimas de violência sexual, apresentou programas como a lei de desenvolvimento da cultura do funk e a lei de construção de habitação para famílias de baixa renda. Assinou com os colegas a regulação de mototaxis, foi presidente da Comissão Permanente de Defesa da Mulher e acompanhou a Intervenção Federal na Segurança Pública no Estado fluminense.

Post de Marielle Franco no Twitter, um dia antes de ser assassinada.

Em seus discursos e em redes sociais, Marielle denunciava atos de violência policial, seu colega do PSOL, Chico Alencar, afirmou à BBC Brasil que Marielle incomodava: “Ela não estava sob ameaça, mas incomodava muito policiais truculentos e milicianos. Todos os indícios são de execução, ato bárbaro de quem sabe atirar”.


Assim, o legado de Marielle Franco inspira atualmente muitas mulheres a entrarem na política. Nessa perspectiva, a voz de uma vereadora hoje ecoa em território nacional e Marielle se tornou símbolo de uma urgência por uma nova política com novas vozes, estas que ainda sofrem tentativas de silenciamento por provocarem mudanças estruturais na sociedade em que vivemos.


Em ‘’A mãe de todas as perguntas’’ a historiadora Rebecca Solnit descreve a necessidade das mulheres romperem com o silêncio: ‘’As novas vozes, como vulcões submarinos, irrompem à superfície da água e nascem novas ilhas; é uma atividade furiosa e surpreendente. O mundo muda. O silêncio é o que permite que as pessoas sofram sem remédio, o que permite que as mentiras e hipocrisias cresçam e floresçam que os crimes passem impunes. Se nossas vozes são aspectos essenciais da nossa humanidade, ser privado de voz é ser desumanizado ou excluído da sua humanidade. E a história do silêncio é central na história das mulheres.’’.

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